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O que a gente cala não existe


Marcos Abrahão, Tião Macalé, Marina Miranda e Renato Ruzzi. (Arquivo Pessoal)
Marcos Abrahão, Tião Macalé, Marina Miranda e Renato Ruzzi. (Arquivo Pessoal)

Hoje o tema é racismo, essa doença que acomete parte considerável da população brasileira. Não tenho lugar de voz para julgar ou descrever a dor de quem sofre com essa maldição social, mas tenho histórias para contar.


Lembranças de um menino pobre, correndo descalço pelas ruas de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Parte da molecada livre que tinha a calçada como playground. Um bando de biquinhos-de-lacre em revoada e estardalhaço. Felizes, puros e sinceros como só crianças conseguem ser. Negros, brancos, mamelucos, mulatos, sararás... que diferença fazia a cor da pele? Éramos amigos.


Na família, negros e brancos casavam e isso trazia mais tios e primos negros e brancos. Reunidos na casa da avó – a pernambucana filha de italianos que casou com um sírio e trouxe ao mundo meu pai, que casou com minha mãe, filha de uma portuguesa que casou com um amazonense ribeirinho, descente de índios –, era uma mistura só, um sangue só, uma alma só. Como eu entenderia que uma pessoa rejeita a outra pela cor da pele, se eu sabia que não existia diferença? Se meus humoristas preferidos eram o Tião Macalé e a Marina Miranda? Eu adorava tanto aquela dupla que entrava pela televisão nos domingos e nos fazia dar deliciosas gargalhadas! Foram tão marcantes na minha vida, que os usei em minha primeira campanha publicitária premiada, para os Supermercados Disco.

Marina Miranda e Tião Macalé - Arquivo
Marina Miranda e Tião Macalé (arquivo pessoal)

Talvez a primeira campanha de varejo que tenha usado personagens negros como protagonistas. Negros aparecendo no horário nobre da TV, com a frequência que a mídia dos anos 1980 permitia. Negros vendendo comida e dizendo “Nojento” na hora do jantar. Toda a audácia de quem criou e toda a coragem do anunciante não ficariam impunes. A agência de propaganda foi soterrada por uma avalanche de cartas em protesto. Gente de bem que se incomodou em ver “esses negros nojentos me chamando de nojento na tela da minha TV. Não compro mais nessa merda de supermercado”.


Essa frase ficou na lembrança, mesmo passados 38 anos do ocorrido. Os racistas não eram maioria, o Disco não parou de vender e o bordão “Nojento” criado pelo Tião Macalé resgatou ele e Marina Miranda de um ostracismo imposto por uma TV geneticamente branca e lhes permitiu um final de vida decente. Tião já partiu, Marina ainda está com a gente. Em novembro do ano passado ganhou o prêmio Chiquinha Gonzaga pela sua obra como atriz e comediante. Sua biografia está sendo escrita por Clóvis Correa de Andrade e deve ser lançada este ano, se o vírus permitir.


É só mais uma história de negros que fazem sucesso e incomodam, eu sei. É só mais um exemplo dessa doença social endêmica no Brasil, eu sei. Mas se você não conta, não existe. É assim que o racismo vence.

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